quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nós, os Jornalistas

Contam os meus pais que com 5/6 anos sentava-me no sofá, com o jornal A BOLA nas mãos e assim aprendi a ler. Na altura, o seu formato era enorme, quase tão grande como eu, consta, mas era um sinal. Anos mais tarde, consegui escrever milhares de palavras no jornal que me ensinou a saber o que queria ser quando fosse Grande. Foi isso mesmo, em criança ensinou-me a sonhar que seria um dos que informaria o público com a verdade, com profissionalismo, com esforço e dedicação. No meu primeiro emprego enquanto adulto mostrou-me como uma equipa de homens e mulheres, com o mesmo propósito, podem dignificar uma profissão que sempre foi nobre, que sempre mudou sociedades, paradigmas e sobretudo lutou contra inverdades. Hoje, apesar de já não sentir o cheiro tão característico de uma redacção, sinto que pelas que passei me fiz um ser humano pleno. Ao contrário, não sinto que nós jornalistas sejamos os mesmos que eramos há sete anos atrás. E a frustração aumenta sempre que lemos tanta desinformação, sempre que vejo ex-colegas, excelentes profissionais, obrigados a ceder nas suas convicções, a perderem o seu emprego, mais do que isso, o sonho que todos alimentámos durante tantos anos. A crise de liderança não passa apenas por quem nos governa na esfera política, passa muito por quem pensa na linha editorial, por quem escolhe “jornalistas”, por quem se esquece que a vida dá muitas voltas, hoje olhamos para baixo, amanhã
Nós, jornalistas, não somos respeitados porque não nos damos ao respeito. Nós que pensámos ser uma elite de poder, perdemo-nos nisso mesmo, no poder do ego de gente que acredita poder escrever tudo, mesmo que o tudo seja a soma simples do quase nada. Cada um por si, mesmo os que se gostam, portas que se fecham e outras que se abrem à incompetência amiga. O politicamente correcto de nunca colocar em causa a qualidade de colegas de ofício levou a nossa profissão ao nível mais baixo de reconhecimento e aceitação. Será assim tão mau dizer: “não sabes o que escreves ou o que dizes”? Hoje, ser jornalista é ser mais um, tantas são as “brincadeiras” para com leitores ou telespectadores, autênticos atestados de idiotice, simplesmente porque amanhã o jornal vende ou o programa tem a mesma audiência. É mentira! Poucos entendem que para informar é preciso estudar os temas, ser honesto, humilde e educado. Posso citar 50 nomes de grandes jornalistas que ainda fazem do seu trabalho a sua honra (na A BOLA, no Record, no MaisFutebol, no Expresso, no Público, na RTP). Grandiosos no seu carácter, brilhantes nos seus dedos, na sua voz, na sua inteligência. Posso citar outros tantos que na vaidade da sua carteira profissional, dia após dia, destroem um sonho de décadas. Talvez sejam almas vazias de profissionalismo, não consigo chamar aberração da natureza a ninguém.
Ps: Hoje Re-Bolamos com muita força para os colegas que nos jornais veem o seu posto de trabalho em perigo. Sempre solidário com todos os verdadeiros guardiões da nossa profissão.